«Não entendo porque insiste ela. Nem concebo como é que alguém pode reparar na minha pessoa nesta fase em que me sinto tão dividido e fora de mim. Mas ela por ser muito espontânea dá-me as respostas que eu próprio queria dar e não consigo. Vive num mundo totalmente irreal mas sublime. Vive a vida com uma intensidade quase mágica. Diz ela que tem medo de perder mais tempo. Tem um profundo respeito pela vida apesar de ser uma das suas vítimas, e continua a acreditar. Não percebo isso. Eu própria perdi muito tempo e as dores, decepções e sonhos desfeitos foram bastantes. Depois, existe esta rotina tediosa que me está destruindo mais e mais a cada dia que passa. E me impede de olhar em frente e de acreditar no que vejo. No meio desta ânsia desmedida de aproveitar o que ainda me resta, e não saber que caminho seguir surge-me ela como um aroma doce e Inebriante, fala-me de sonhos que eu queria ainda sonhar mas já não sou capaz. Murmura-me abraços e sentimentos e eu há já muito tempo que não consigo sentir. Apesar de ser sonhador a idade trouxe-me a lógica e a racionalidade. Não posso perder mais tempo, tenho timings a cumprir. Ao menos na minha profissão sinto-me perfeito, em equilíbrio e segura de mim e isso e leva-se tempo para conseguir. Mas ela sofre. Sofre muito. Não é feliz sequer, mas continua a sonhar, a acreditar e a ter esperança que um dia chegará a sua estrela. Eu não acredito nisso. Ou melhor: tenho medo de voltar a acreditar e depois secar de vez.(...) Ás vezes, (só às vezes mesmo) ainda me perco em imaginações furtivas e surreais das possíveis realidades que me fariam feliz e inteiro. Mas desço logo à terra. Tem de ser assim. Não posso acreditar em coisas que não se realizem. Já vivi muito tempo à espera delas e as respostas têm sido poucas. Tive uma educação dita perfeita pois nunca me faltaram bens materiais sempre os tive disponíveis e à mão. Faltaram-me sim alguns valores humanos. Penso que se esqueceram deles (...) Agora, e tendo entrado já na ternura dos quarenta, sinto-me perdido, pois não estou a vive-la como queria. Tenho tanto de mim para dar ó Céus mas não sei a quem. Os humanos vivem a vida muito à pressa e esquecem-se de certos pormenores. Da própria ternura por exemplo. Gostava de me conseguir deixar levar. Mas os valores em que acredito impedem-me de ir mais além e de acreditar na sua singeleza e simplicidade. »

 

Maria Lua

 

publicado por MariaLua às 20:10