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Todas as tardes ela vinha com o cesto da costura para o sol do corredor, se a tarde era de Inverno, ou para a sombra da figueira, se era nos calores do Verão. Ali estava agora, direita ainda, frente ao vento da tarde funda de Agosto, um vento largo e calmo de céu e de montanha. Mas tão grande era a certeza de sossego à sua volta, tão aberta de paz e de sinal, que a cabeça lhe tombou para o tronco da figueira e as mãos e os olhos se entregaram à uncão de uma morte merecida. Quanto tempo? Abriu os olhos e sentiu-se verdadeira no seu corpo fatigado, como fora verdadeira toda a dor que conquistara. - Mãe Genoveva! Há quanto tempo? Um dia, ele voltara da fábrica mais cedo que de costume. Tinha as mãos certas, o olhar certo, uma certeza tão presente em todo o seu corpo forte, que era quase como se não tivesse um destino. Assim Genoveva o foi esperar ao limite mais extremo da sua confiança, serena, branca e loura, alta e loura como a glória. E tendo-se apenas fitado longamente um ao outro, reconheceram-se por detrás da sucessão dos séculos, húmidos de origem, infindáveis de apelo, como tocados, para sempre, de um esquecido indício divino. - Vicente! Depois veio o Inverno e a baba do vento e as noites sem fundo como o capuz de um condenado. A montanha espadaúda combateu brutamente contra o céu, caíram sobre o mundo tumultos de trovoadas, chuvas e nevoeiros esmagaram a terra de pavor. Mas havia para Genoveva, no centro de tudo isso, uma oculta defesa, não bem contra o perigo do céu e da montanha, não bem contra o terror do mistério, mas contra uma pálida suspeita de morte, que se alongava pelas noites solitárias. Vicente dizia-lhe que uma nova fiacão ia ser posta a trabalhar ou que se falava em aumentar a féria, ou até mesmo que sentia o corpo fatigado. E tudo isto, saído da sua boca, era tão forte de perfeicão e de verdade, tão como o bafo quente de quem nos aconchega a roupa, que o mais era a memória de um pesadelo morto. Assim, como toda a sua vida falava de promessa e de futuro, quando depois do Inverno voltou a Primavera e, depois da Primavera e do Verão, o Outono lhes trouxe um filho, ela não se surpeendeu. Só o marido pareceu embaraçado de medo e deslumbramento, diante de um prodígio maior do que ele e que, no entanto, incrivelmente, tinha o destino do seu sangue e sua raça. Ou talvez que nesse olhar longo e calado em que envolvera o filho, ele quisesse apenas trasvasar-lhe tudo quanto julgava não lhe ter dado ao nascer; porque, dez dias depois, o correão do tambor das cardas apanhava-o pelo casaco e arremessava-o contra os caibros do tecto. Três vezes o corpo desconjuntado de Vicente atravessou o espaço, três vezes os companheiros clamaram sobre o estrépito das máquinas. Quando, por fim, alguém parou o motor, Vicente foi desprendido da correia e deitado em silêncio no chão. Tinha os ossos todos britados, o corpo numa papa sangrenta. E tão desfigurado de tortura e de sangue, que os companheiros não ousavam reconhecê-lo nem tocá-lo. Só as mãos seguras da mulher, tão certas como se as não comandasse, conheciam o lugar da sua boca, dos seus olhos e do seu olhar. E pousando-as longamente naquela face destruída, aí as esqueceu, confraternizando com o sangue, como se esperasse que Vicente adormecesse enfim, ou que ela fosse investida, de algum modo, numa parte daquele sofrimento. Depois partiu dali desvairada, atirada num grito, e precipitou-se, com um ciúme assassino, sobre o filho que era seu. E subjugada pela voz absoluta da morte e da criacão, o amor ao filho grudava-a a si própria, atirava-a contra o futuro como uma força escura da terra. Só três meses depois, corroída de cansaço, consentiu que um senhor que lhe viera pôr na mesa um envelope fechado, lhe levasse o filho, o registasse, o baptizasse e lho trouxesse, enfim, com o nome inteiro do pai. Só depois consentiu que a vida recomeçasse. Já o vasto silêncio do Inverno caía de novo sobre a aldeia e o vale. Era agora uma lúcida aridez de prados de gelo, uma alegria mortal de longas neves, como a inocência de um cadáver de criança em urna branca, era o sol rápido e triste, os cavernosos urros da tormenta. Mas agora tudo clamava, duramente, pela angústia de Genoveva, perseguindo-lhe os dias e as noites. E umas vezes chorando sobre o filho, com o desespero de um amor impotente e desgraçado, investindo, outras vezes, de coragem alta, contra o ódio da morte, a promessa renasceu-lhe finalmente no coracão. Contava os dias nos segundos, pelo esforço dos trabalhos avulsos - casas lavadas, carregos, sol a sol no campo - com o suor da sua entrega pedido a cada parte de si. Mas, repentinamente, a virgindade de um mundo nasceu em roda do filho. Com uma voz que já não era a dela nem a do silêncio indefeso da criança, surgiu um dia, ali, diante de si, na certeza irrevogável dos muros negros da casa, a enorme verdade de um ser que falava, que pedia, que pensava. De si até ao filho, ia agora o milagre de uma fraternidade nova, ia quase uma surpresa de dois ausentes que se encontram, como aquela que Genoveva sentira em face do marido, quando reconheceu que o amava. Com um espanto que nunca supusera, ela via crescer, à sua face, o prodígio de um deus que impetuosamente recriava a terra e os céus. O pequeno dizia "mãe", "pão", "lua", e a lua e o pão e ela própria existiam realmente, levantavam-se para a vida pela primeira vez, ou surgiam tão diferentes e tão novos que era como se só então tivessem sido criados. Porque a lua era o apelo de uma inocência inteira, e não um cansaço do fim; o pão, apenas uma forma que se cumpre, e não um ódio necessário; e tão nova era agora nela a verdade de ser mãe, porque tão-só ela e tão a medo até agora o soubera, que Genoveva se curvou de humildade e gratidão, diante de si e do filho, como um mistério de uma vontade divina anunciada.

 

Virgilio Ferreira

 

publicado por MariaLua às 15:51