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Tenho vivido com se tivesse um defeito de fabrico e usasse as pernas ao pescoço em vez de as ter junto ao "cóccix". Nunca faço nada que esteja correctamente certo. Mas quem sou eu para me auto-avaliar? De qualquer forma é isto que minha mãe sempre repete. A pobre senhora, que nunca teve um minuto de sossego por minha causa nem agora que já atravessou a casa dos sessenta consegue respirar um pouco do ar puro a que tem todo o direito. Sou mesmo uma filha problema... comecei por o ser quando tinha um ano e pouco, aquando de uma sesta em casa da vovó em que me deliciei a papar todas as cabeças de fósforo de uma pequena caixa que por ali havia sido esquecida. Foi um fim de tarde atribulado em que num hospital perto de si me vi empanturrada por uma tala e um tubo de plástico goela abaixo sem tão pouco me terem deixado dizer: - Não quero. Também diga-se de passagem que ainda não falava muito bem. Ah é verdade e não tinha dentes. A mamã já pensava que ia ter uma filha desdentada toda a vida quando aos dezanove meses umas gotas maravilhosas os fizeram nascer todos de uma vez. Como consequência disso, tempos depois tive febres tão altas que acabei por ter convulsões e lá foi toda a família passear novamente até ao hospital onde em cima de uma maca não queria dar sinal de mim e voltar à vida. Dessa vez é que a pobre senhora minha mãe se passou coitada, quando a médica lhe disse que eu corria perigo de vida. Mas foi só um susto. Acordei!!! Vá lá leitor não é preciso chorar. Se tivesse morrido não poderia estar aqui a relatar estes episódios :) Sempre fui realmente uma filha problema. Rapazes ai deles! Um dia devia eu ter os meus nove anos mais ou menos e numa disputa com um sobre um assunto qualquer sem importância irritei-me de tal forma que. cof cof... bem levantei a mão e parti-lhe dois dentes. Foi literalmente de gritos ver o rapaz (também da mesma idade) correr à minha frente e ir desabafar adivinhem com quem? Exactamente com a tal senhora que me pariu e que realmente mais uma vez não ficou muito orgulhosa da filha que tinha mas que dessa vez até se riu. Não foi assim tão mau pensei... Mas realmente enganei-me pois tal procedimento custou-me um castigo de quarto (chamávamos castigo de quarto quando tinha de ficar presa no quarto e não podia sair) aquilo custava-me muito. Mais valia apanhar uns "tabefes" e ir para a rua brincar após o jantar. Outra das minhas pobres vitimas era meu irmão (um puro santo com tripas!!!) que ainda me sofreu algumas. penso que ainda hoje ele dá razão a minha mãe quanto à minha eteriedade. De umas vezes era obrigado a comer a sua refeição e ainda os restos da minha que eu sorrateiramente colocava no seu prato sem que ninguém visse. De outra vez (recordo como se fosse hoje, apesar de ter acontecido quando eu era ainda muito pequena) ficou com o polegar pendurado aquando de uma tentativa desesperada de me tirar uma faca da mão com a qual eu possivelmente poderia causar danos irreparáveis. Os dele foram reparáveis com apenas dezassete pontos. Bem, quando comecei a crescer e a ficar com o nariz ainda mais empinado ai sim a minha linda mãe começou a ter verdadeiros problemas. Vieram os pedidos de saídas à noite com as amigas os olhares prolongados para a sombra e os desejos de independência. Nessa altura a senhora minha mãe adquiriu olheiras profundas que ainda hoje detêm pelas noites mal dormidas. Quando temos dezoito anos, achamos que o mundo nos pertence e que já somos adultos e podemos tomar conta de nós sozinhos sem a interferência dos velhos, mas ao mínimo problema ai estamos nós cheios de medo e agachados por baixo da saia da mamã que parece esquecer que o erro foi nosso e nos deixa lá ficar até nos recompormos. De qualquer forma penso que a minha querida e adorada mãe não tem sido das mais desafortunadas pois apesar de eu ter realmente uma essência um pouco esvoaçante e aérea sempre soube ama-la como merece. Não podemos ser todos iguais né?

 

 

Maria Lua

 

publicado por MariaLua às 20:31