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O ser humano não vive sem histórias. Fábulas, parábolas, lendas e mitos têm servido há milénios para ajudar os homens a compartilhar os seus sonhos e a transmitir experiências e ensinamentos. E foram sempre a ferramenta favorita dos grandes mestres espirituais para falar dos assuntos da alma. Elas estão tão misturadas na nossa vida que, muitas vezes, nem reparamos. Quem não pediu já a Deus uma paciência de Jó? Ou desejou a beleza de uma deusa? As histórias escondem-se na nossa fala. Fazem rir e chorar. Tremer de medo ou abrir os olhos de assombro. Às vezes, incomodam. Esteja você a ouvir, a ler ou a assistir, não importa, uma boa história é um presente. Uma herança de sabedoria passada de pai para filho ao longo dos tempos. Através delas é possível vislumbrar o mistério das nossas origens e do nosso destino. Por existirem inúmeras coisas fora do alcance da compreensão humana é que frequentemente utilizamos termos simbólicos como representação de conceitos que não podemos definir ou compreender completamente. Essa é uma das razões por que todas as religiões empregam uma linguagem simbólica e se expressam através de imagens, ensina Carl Gustav Jung.

As histórias fazem-nos dar saltos em vez de andar e preenchem com as suas cores e símbolos as falhas da nossa compreensão.

 

Como tudo começou

 

As histórias são tão antigas quanto os homens. Elas nasceram da nossa necessidade de deixar marcas e registos da nossa passagem pela terra. A natureza, ao contrário, desconhece o antes e o depois; plantas e animais vivem num eterno presente. Os homens inventaram o passado e o futuro. E criaram as histórias para servir de elo entre um e outro.

 

A função das histórias sempre foi preservar a memória e transmitir as descobertas, as intuições e os sonhos de uma geração para a seguinte. Houve um tempo em que a busca de significado espiritual para a vida era uma necessidade colectiva. As histórias são parte fundamental dessa troca. São criações colectivas de milhares de vozes, anónimas, cobertas de pó. No início e durante milénios, foram contadas oralmente, em volta das fogueiras das aldeias, recitadas pelos poetas ao som de harpas e liras ou transformadas em cantos. Uma das primeiras orações que conhecemos é um hino em louvor a Innana, a grande deusa da Mesopotâmia. Relata o casamento da divindade e a sua descida ao reino dos mortos para resgatar o seu esposo, o jovem deus Tammuz.

 

Com o aprimoramento da escrita, a tradição oral saiu da memória e se eternizou na pedra. Uma das mais antigas obras escritas conhecidas é a Epopéia de Gilgamesh, uma obra-prima de 3.500 versos gravados em pedra no segundo milénio antes da Era Cristã. Escribas cuidadosos e pacientes gravaram em tabuinhas de argila as aventuras de um rei da cidade de Uruk, na Suméria, o herói Gilgamesh, e o seu amigo fiel Enkidu. A história do herói serve como ponto de partida para imortalizar os mitos e a sabedoria da civilização suméria, transmitidos oralmente durante séculos.

 

Segredos desvendados

 

Dentro de uma história existe outra e outra e outra... Em geral, a linguagem das histórias é a linguagem dos símbolos. Carl Gustav Jung, um dos maiores pensadores do nosso século, no seu livro O Homem e Seus Símbolos, explica que a linguagem simbólica é a única ferramenta que temos para tentar explicar aquilo que está além da nossa compreensão racional. Daí as histórias serem tecidas com essa profusão de imagens que parecem saídas dos sonhos. O fascínio das histórias vem dessas riquezas culturais. Também por isso, às vezes, parecem tão difíceis de ser compreendidas. Ao ler uma história, encontramos duas categorias de símbolos. Alguns são típicos de determinadas culturas e, com frequência, o seu significado escapa-nos. Outros são símbolos universais, marcados no inconsciente colectivo, e que constituem um património espiritual comum a toda a humanidade. O círculo é um deles, assim como a cruz.

 

Joseph Campbell, estudioso dos mitos e brilhante contador de histórias, chamou-lhes ideias elementares. Ele conta que na Índia existem duas palavras para definir os símbolos usados na mitologia e nas histórias tradicionais: desï, que quer dizer local, e marga, que significa caminho. Se despirmos as histórias das informações locais, típicas de cada povo, chegaremos à verdadeira ideia, que é o caminho para o coração de cada um de nós. Esse é o caminho das histórias.

 

Assinado: Uma Contadora de Histórias

 

MariaLua

 

publicado por MariaLua às 19:57