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“O homem tinha o olhar fechado e o rosto agudo dos índios da fronteira. Mas só o vi depois. O que primeiro me chamou a atenção foi o frasco transparente, e dentro dele, flutuando num liquido turvo, o escorpião. Percebendo o meu interesse o boliviano enumerou, uma por uma , todas as virtudes do licor de escorpião. Fiquei a saber que além de evitar a queda do cabelo, protege contra as ciladas do amor, afasta os invejosos, atrai a riqueza e cura as feridas da faca. Ainda mais importante, sussurrou-me o índio, fortalece a machesa dos machos, assegurando a quem o tomar uma erecção de cavalo. Tudo isso, continuou, por apenas cinco dólares. Disse-lhe que não trazia dinheiro, mas já era demasiado tarde. Agarrando-me por um braço o vendedor destapou um cesto de palha, e ali mesmo me mostrou uma colecção de cabeças vagamente humanas, presas pelos cabelos a um suporte de madeira. Garantiu-me que eram peças autênticas, as famosas cabeças reduzidas dos Jivaros, e porque tinha simpatizado comigo fazia-me até um preço especial. Fui-me embora, mas ele veio atrás de mim, arrastando os cestos. Afastei-me a correr, já o desgraçado me aliciava com uma antiga pomada dos incas, capaz de tornar um homem invisível aos olhos dos seus inimigos. Quando regressei ao hotel o sol desaparecia entre as montanhas. Encostado à parede, o índio esperava por mim. Abriu a mão e eu vi dois pequenos ovos azuis. São ovos de anjo, revelou. Aquilo não me surpreendeu: se os anjos têm asas é então natural que ponham ovos. Ainda hoje lamento não os ter comprado”.

 

 

 José Eduardo Agualusa in Inéditos

publicado por MariaLua às 01:01