NOTA DE EDIÇÃO:

Antes de mais gostaria de dizer a todos os que me lêem e/ou comentam que a minha forma de intuir as pessoas sobre as quais escrevo é colocar-me na sua pele faço-o como se estivesse a falar de mim mas acreditem que tal facto é pura coincidência e apenas uma forma de sentir. Decidi escrever esta nota porque nos comentários aos meus últimos posts fiquei com a sensação de que as pessoas pensam que estou a falar de mim e essa ideia não corresponde de todo à realidade (é possível que existam algumas gotas de lua minhas mas serão apenas nuances). Beijinhos para todos e bom fim-de-semana!

 

 

A um pai, que sente que nunca será muito bem compreendido.... São para ele as minhas Rosas

 

"Não compreendo este frio que me invade a alma. E me faz ter vontade de gritar e ficar sufocado por não conseguir. Não tive uma vida muito boa. Não tive muita sorte. Fiquei só no mundo muito cedo. E isso já é mais do que suficiente para dar cabo da vida de qualquer um. Acho que em pequeno nunca sorri. Só me lembro de o ter feito no dia em que me casei com aquela mulher maravilhosa que veio para tomar conta de mim e para me dar tudo aquilo que nunca tive. E nos dias dos nascimentos de meus filhos. Eram bebés tão lindos ó céus. Tão rosadinhos e perfeitos. Lembro-me que ajoelhei ali mesmo onde estava e agradeci a Deus aquela dádiva de vida. Pedi-lhe que os fizesse felizes um dia e tão honrados e honestos como eu. Nunca fiquei a dever nada a ninguém. A partir daí e para os criar não existiram mais dias Santos, fins-de-semana ou feriados. Quando saia do emprego haviam sempre pequenas e grandes coisas que podia fazer na oficina de forma a fazer entrar mais dinheiro em casa pois os seus sorrisos futuros também se cultivariam se nada lhes faltasse. Queria oferecer-lhes uma vida melhor que a minha, dar-lhes cursos secundários. Com um curso arranjam-se sempre melhores empregos. Deus nunca me abandonou. Sempre que estávamos mais apertados aparecia sempre um biscate para acertar o orçamento familiar. E em questões de equilíbrio e de esticar finanças ninguém melhor do que a minha cara-metade. Tinha tão grandes capacidades de gestão financeira que foi uma pena não ter prosseguido os estudos. Mas são coisas da vida. Depois tornou-se tarde demais. Para quê estudar depois de madura? Ela lia muito. Se calhar era por isso e ao contrário de mim, que tinha tanta facilidade naquilo e em comunicar com as pessoas. Até com doutores imagine-se!!! Mas continuando...havia vezes em que ganhava um pouco mais e vinha para casa todo contente pensando que seria dessa vez que poderia comprar aquela camisa que estava na montra da loja da vila e que namorava há tanto tempo, ou levar a famelga a almoçar fora num domingo depois da missa. Mas triste sorte... chegava a casa e o cano dos lava-loiças tinha estourado, ou o fogão tinha avariado, ou o ferro de engomar não funcionava, ou uma das crianças havia adoecido. E... Bye-bye camisa, adeus sonhos meus. Já não havia folgas de dinheiro nenhumas. (...)

Parei no tempo confesso. Não aprendi muita coisa. Na altura era difícil. Meus pais morreram era eu ainda um menino. Nunca tive ninguém que me ensinasse a apreciar as rosas, e a sentir-lhes o perfume. E ela também se queixava disso. Mas que fazer?! Fui criado pelos velhos da família. Os que viviam em função do passado e das crendices. Que poderia agora esta nova família esperar de mim? Não recebi nada. Não posso dar nada. A não ser a minha honestidade, os meus poucos sorrisos e o meu amor. Que apesar de não saber demonstrar continuo a sentir. Sou um tonto bem sei. Mas um tonto que queria ter tido uma vida diferente, com mais alegrias e menos dores inconformadas. Um tonto que sonhava ser feliz mas que se meteu no transporte errado e foi parar a um sitio totalmente desconhecido e que por isso se perdeu. E que agora sente esta vontade de gritar e não consegue."

 

Maria Lua

publicado por MariaLua às 15:06