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Nota de Edição:

 

Aqui fica mais um texto sobre alguém que intui. Mais uma vez quero que os meus estimados leitores saibam que os sentimentos que esvazio neste post nada têm a ver com o meu sentir em relação há vida. Estou bem sinto-me feliz, sinto-me forte. Mas a pessoa sobre a qual escrevo nem por isso. E porque sou uma contadora de histórias senti necessidade de vos contar a sua "Estória" Beijinhos para ela e "aquele" abraço.

  

 

"Sinto-me gasto. Passei muito tempo a olhar este mar... acho mesmo que as suas vagas me ultrapassaram e cegaram. Talvez fosse esta uma forma de lembrar o que deixei lá. O meu mar é mais azul, e o meu sol é mais presente é mais quente. Confesso que já não me lembro bem do seu calor em mim. Já foi há tanto tempo: dezassete anos, dezassete anos que mais me parecem dezassete séculos, aqui à espera de um barco para me levar para onde pertenço e sem nunca saber se vem. Tem vezes que venho aqui e até me esqueço do que vim fazer. Mas tenho de vir. Sento-me sempre no mesmo sítio. E quando está ocupado volto mais tarde e esvazio então os pequenos mares dos meus olhos na imensidão deste. Vim para cá em busca de uma melhor resposta à minha existência. Na altura achava que só isso era importante. E que eu era auto-suficiente e não precisava de ninguém. Com o desenrolar do tempo descobri que as respostas estavam dentro de mim, não em sítios ou locais. E que eu sozinho não era ninguém. Faltavam-me raízes, um homem sozinho é como um corpo desmembrado. E já dizia o poeta: As raízes dos homens prendem-se à terra onde nascem, onde vivem. Também têm existido bons momentos é certo. Quando quero um corpo tenho esse corpo E posso usá-lo para esquecer. E o prazer vem como um delírio. Mas o certo é que existem momentos em que só um corpo não chega e em que não quero esquecer e preciso de mais. Um cérebro e conversas por exemplo. Mesmo que banais, desde que sentidas. E um colo onde repousar a cabeça. E mimo muito mimo. Preciso e não tenho. E barulhos, muitos barulhos. Crianças a rir. E minhas. Adoro essa ideia. Dou por mim muitas vezes a imaginar a minha família e seus afazeres. Os meus filhos... esses que nunca chegaram a nascer. Penso que agora queria ter tudo do que fugi. Plantaram lá, mais uma pequena flor na nossa árvore genealógica. Assim ainda me é mais difícil estar aqui sem o ver crescer. O meu menino. Uma semente que sinto ter ajudado a semear e que também me pertence. Estou mais lá do que cá. É verdade. Aqui prendem-me os amigos, os que iguais a mim passam pelas mesmas solidões, os que também escutam o Postal dos Correios dos Rio Grande e choram sorrindo para que ninguém perceba, e dizem que não podemos ser pimbas e dramáticos. E vai mais um copo para esquecer!!! Como resposta aos meus momentos sem resposta tenho a minha guitarra e os gemidos que dela consigo tirar e que não mostro em público. São gemidos só meus. Afinal fui eu quem escolheu este caminho que sinto estar quase no seu término. E não posso culpar ninguém por isso. Depois será o regresso e o agarrar tudo com ambas as mãos exactamente onde deixei. Só com uma diferença: já tenho cabelos brancos e poucos sonhos. Quero apenas ter uma vida banal. (Nunca me imaginei a dizer isto mas é verdade) Uma vida sem novidades. Mas completa. Sem vazios, já me bastam todos estes anos aqui. Vou regressar. Sei disso. E quero sorrir muito e ficar maravilhado por as coisas não terem mudado. Por os meus espaços serem os meus espaços. E por a minha cidade ter ficado adormecida no tempo. Assim é mais fácil. Quero lá perder o meu tempo para me reencontrar".

 

Maria Lua

publicado por MariaLua às 13:42