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Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009
Leve um Livro Para a Cama

 

 

 

 

 

 

 

 

Vá á feira do Livro, às Livrarias, às bibliotecas que emprestam livros e traga um livro.

Leve o livro para casa.

Leve o livro para a cama.

É sempre uma boa companhia. Quando lê, nunca está sozinho.

Mas primeiro dispa-o cuidadosamente do papel ou do saco de plástico que o envolve. Depois, pode demorar-se a apreciar a encadernação, acariciar a lombada, abri-lo lentamente, folheá-lo devagarinho até encontrar uma ilustração mais interessante, pode voltar ao principio, começar a lê-lo sem presas, entusiasmar-se e mesmo acabar de repente, com sofreguidão.

E pode começar de novo de uma maneira ou de outra. Um livro tem sempre algo de diferente a revelar, às vezes custa é descobri-lo.

Pode voltar a pegar-lhe no dia seguinte, todos os dias, até se cansar, que ele permanece sempre a seu lado.

Não precisa de fazer uma leitura segura: não é necessário pôr-lhe uma capa plástica para o proteger. As suas mãos podem sentir-lhe a textura, a suavidade, a qualidade do papel, o cheiro da tinta e o pior que pode acontecer-lhe é ficar seduzido para sempre.

Pode lê-lo em qualquer posição, de trás para a frente, de frente para trás ou mesmo começar pelo meio. O livro está sempre disponível para se entregar a quem o ama.

Talvez seja mesmo o primeiro a tê-lo, e então haja com mil cuidados, porque vai querer saborear esse momento raro de colher as primícias do seu conteúdo.

E também há-de querer lê-lo mais vezes.

Leve um livro para a cama.

Ler, às vezes, é quase tão bom como fazer amor.

Leve um livro para a cama, hoje, amanhã, sempre.

 

Henrique Barreto Nunes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



publicado por MariaLua às 18:26
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Terça-feira, 14 de Outubro de 2008
O POETA NASCE NO VENTRE DAS PALAVRAS

 

 

 

 

 

 

Num dia que poderia ser manhã, tarde ou noite, o poeta sentou-se no cimo de um rochedo e gritou: NÃO! ………………..…………………………………

Tinha decidido acabar com a sua vida pois todas as palavras haviam deixado de fazer sentido (e sentia-se a viver em sentido contrário, cheio de stops, lombas e pavimentos escorregadios).

 

O poeta sentia-se nu e vazio e com o coração cheio de frio e de  ideias loucas e ocas e com o cérebro cheio de orelhas mocas e de bocas que já não diziam nada...O poeta voltou a gritar: NÃO!......................................................................

 

Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii…Tragam-lhe agasalhos e sonhos claros de manhãs primaveris, tragam-lhe as asas (que ele próprio escreveu) e um gineceu cheio de estrelinhas douradas que rompam nas madrugadas e lhe tragam o alívio às dores de que padece... tragam-lhe o verão e verão que ele nunca mais se esquece... Ahh… e tragam qualquer coisa que fique acesa e que traga na ponta uma porta presa para que ele sinta que existem sempre portas para abrir e locais para onde fugir e depois chorar e sorrir…………………………………….

 

O poeta descobriu que precisa descobrir e parir novas palavras como forma de nascer de novo…

 

Ah os poetas… esses loucos… usam as palavras como se fossem pasta de dentes e depois quando acham não há mais nada para "branquear" querem partir e fugir… e ruir….

 

Guardem-nos no peito óh gentes pois só as suas palavras vos permitem ser mais do que PALAVRAS…

Maria Lua

 

 



publicado por MariaLua às 19:15
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Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008
Afinal o que é que existe dentro dos livros?

Espreitei...

Não, não podia ser...

olhei outra vez.... ah... mas estavam mesmo lá...

Nunca acreditei mas é verdade: LER DÁ-NOS MESMO ASAS



publicado por MariaLua às 16:15
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Sábado, 14 de Junho de 2008
Jamais invisiveis...

invisivel1.JPG


MONUMENTOS VIVOS



Podemos encontra-los nos bancos de jardim onde pregam amor, falam do peso do tempo ou espalham sorrisos e transmitem sabedoria a quem os quiser “ver”. Muitos são doentes e subsistem com míseras pensões que não lhes permitem viver como mereciam. Apesar de muitos deles serem incultos e analfabetos detêm de sabedoria suficiente para escrever um bom livro. Apesar de passarem a vida a dar tudo o que têm aos filhos e ao país são muitas vezes desprezados por estes e pouco amados…


São os senhores do tempo a árvore que enraíza este país e nos faz a todos ser mais legítimos. Por isso no dia em que morrerem este país ficará mais pobre e vazio…


 


Envio daqui um bem haja a todos os que têm mais de 65 anos…


 


A razão deste texto prende-se com o facto de ter recebido o email que a seguir anexo e o qual me deixou profundamente chocada. Pois se hoje somos o que somos e quem somos tudo lhes devemos.


 


AMO-VOS SENHORES “INVISIVEIS”!


 


Maria Lua


 “INVISIVEL


 Já não sei em que dia estamos.


 Lá em casa não há calendários, e na minha memória as datas estão todas misturadas.


 Recordo-me daquelas folhas grandes, uns primores, ilustradas com imagens dos santos que colocávamos ao lado do toucador. Já não há nada disso. Todas as coisas antigas foram desaparecendo. E sem que ninguém desse por isso, eu também me fui apagando...


 Primeiro, mudaram-me de quarto, pois a família cresceu.


 Depois passaram-me para outro menor ainda, com a companhia das minhas bisnetas.


 Agora, ocupo um cubículo, que fica no anexo da moradia.


 Prometeram-me substituir o vidro partido da janela, mas esqueceram-se, e todas as noites, entra por lá um ar gelado que aumenta as minhas dores reumáticas. Mas tudo bem... Desde há muito tempo que tinha intenção de escrever, porém passava semanas à procura de um lápis. E quando o encontrava, voltava a esquecer onde o tinha posto.


 Na minha idade, todas as coisas se perdem facilmente.


 É claro que não é uma doença delas, das coisas, porque estou certa que as tenho, elas é que desaparecem. Uma tarde destas, dei-me conta de que a minha voz também tinha desaparecido. Quando falo com os meus netos ou com os meus filhos, eles não me respondem. Todos falam sem me olhar, como se eu não estivesse ali, ouvindo atenta o que dizem. Às vezes, intervenho na conversação, certa de que o que vou dizer não lhes ocorrera e que poderá ser-lhes muito útil. Porém não me ouvem, não me olham, não me respondem. Então, cheia de tristeza retiro-me para o meu quarto e vou beber uma chávena de chá. Faço assim, de propósito, para que percebam que estou aborrecida, para que compreendam que me entristecem, venham buscar-me e me peçam perdão …


 Porém, ninguém vem....Quando o meu genro ficou doente, pensei ter uma oportunidade de ser-lhe útil, e levei-lhe um chá especial que eu mesma preparei.


 Coloquei-o na mesinha e sentei-me à espera que ele o tomasse. Só que ele estava a ver televisão e nem um só movimento me indicou que ele dera conta da minha presença a seu lado. O chá pouco a pouco arrefeceu, e com ele, também o meu coração...


 Então, um dia destes disse-lhes que quando eu morresse, todos iriam arrepender-se.


 O meu neto mais pequeno, disse: “Ainda estás viva avó?”Acharam todos, tanta graça, que nem paravam de rir. Chorei três dias no meu quarto, até que uma manhã, entrou um dos rapazes para ir buscar um skate. Nem os bons dias me deu. Foi então que me convenci de que sou invisível... Uma vez, parei no meio da sala para ver, se tornando-me um estorvo, reparavam em mim. Porém, a minha filha continuou a varrer à minha volta, sem me tocar, enquanto os meninos corriam de um lado para o outro, sem tropeçar em mim. Um dia os meninos, agitados, vieram dizer-me que no dia seguinte iríamos todos passar um dia no campo. Fiquei muito contente. Há tanto tempo que não saía, e mais ainda, não ia ao campo! Nesse Sábado, fui a primeira a levantar-me.


Quis arrumar as minhas coisas com calma. Nós, os velhos, demoramos muito a fazer qualquer coisa, e assim, adiantei o meu tempo para não nos atrasarmos.


 Muito apressados, todos entravam e saíam de casa a correr e levavam as bolsas e os brinquedos para o carro.


 Eu estava pronta, e muito alegre, permaneci no meu cubículo à espera deles.


 Quando dei conta, eles já tinham partido e o automóvel arrancou envolto em algazarra. Compreendi então, que não tinha sido convidada.


 Talvez não coubesse no carro...


 ...ou se calhar, porque os meus passos lentos impediriam que todos caminhassem a seu gosto pelo bosque.


 Naquela hora, o meu coração encolheu e a minha cara tremeu como quando a gente tem que engolir a vontade de chorar. Eu percebo-os.


 Eles têem o mundo deles. Riem, gritam, sonham, choram, abraçam-se, beijam-se.


 E eu, já nem sei qual o gosto de um beijo. Dantes, beijava os pequenitos e era um prazer enorme tê-los nos meus braços, como se fossem meus. Sentia a sua pele macia e a sua respiração doce, bem perto de mim. A sua vida nova dava-me alento e até me dava vontade de cantar canções de que nunca pensara lembrar-me ainda. Mas um dia, a minha neta Joana, que acabara de ser mãe disse-me que não era bom que os anciãos beijassem os bebés. Por uma questão de saúde...Desde então que não me aproximo deles. Não quero transmitir-lhes nada de mau, devido à minha imprudência. Tenho tanto medo de os contagiar! Eu perdoo-os a todos. Porque... Que culpa têem eles, que eu me tenha tornado


 


I n v i s í v e l ?”



publicado por MariaLua às 18:59
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Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2008
Brevemente Volto!!!
Tenho-me ocupado ultimamente a viajar dentro de mim... esta é uma viagem especial pois faz-me crescer Imenso... em breve regresso!

um abraço a todos os fans lolo

Maria Lua

publicado por MariaLua às 22:54
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Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007
Estrelas Cadentes, Estrelas no Coração e Varinhas de Condão...

Varinha.jpg



Existem Estrelas que nos ferem os olhos, Estrelas que brilham dentro do nosso peito e Estrelas que caiem sem que tivéssemos a possibilidade de as apanhar...


Existem Estrelas que enchem os nossos dias, Estrelas que nos fazem sorrir e acreditar no seu brilho, Estrelas que apenas têm brilho e que por dentro são ocas e Estrelas que penduramos na árvore de Natal como símbolo.


 


Depois há os buracos negros (e desses desculpem-me mas não falo pois não gosto de falar dessas coisas ...)


 


Mas as Estrelas que eu prefiro são as das varinhas de condão... (são lindas não são?) Dão-nos poderes... têm o dom de permitir activar todas as ESTRELAS em que realmente acreditamos... e o nosso coração fica grande... grande.. e cheio de Amor para dar.


 


Um dia descobri que os sonhos acabam porque deixamos de acreditar neles... e aprendi também que a única diferença entre uma criança e um adulto é que o corpo do adulto cresceu... se assim não for é sinal de que a Estrelinha não está a funcionar bem...


 


 Beijinhos e muitas varinhas de condão para vocês...


 


Maria Lua



 




publicado por MariaLua às 15:48
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Quinta-feira, 23 de Agosto de 2007
Poema Arabe

primerosaux_cortada1.jpg


Esta manhã enquanto pesquisava na net encontrei este poema que desejo profundamente partilhar convosco...


Um Abraço: Maria Lua


 


Poema Árabe


 


 


O meu filho coloca a sua caixa de pintura à minha frente


E pede-me que lhe desenhe um pássaro.


Mergulho o pincel na cor cinzenta


E traço um quadrado com fechaduras e grades.


Os seus olhos enchem-se de surpresa:


"... Mas isto é uma prisão, pai,


Não sabes desenhar um pássaro?


E eu digo-lhe: "Filho, perdoa-me.


Esqueci-me da forma dos pássaros.


O meu filho coloca o livro de desenhos à minha frente


E pede-me que desenhe uma espiga de trigo.


Pego num lápis


E desenho uma arma.


O meu filho desdenha da minha ignorância,


perguntando,


"Pai, não sabes a diferença entre uma espiga de trigo e uma arma?"


Eu digo-lhe: "Filho,


uma vez usei a forma da espiga de trigo


a forma do pão


a forma da rosa


Mas nestes tempos duros


as árvores da floresta juntaram-se


aos homens da milícia


e a rosa veste uniformes escuros


Neste tempo de espigas de trigo armadas


de pássaros armados


de cultura armada


e de religião armada


não se pode comprar pão


sem encontrar uma arma no interior


não se pode colher uma rosa do campo


sem que os seus espinhos nos arranhem o rosto


não se pode comprar um livro


que não vá explodir entre os nossos dedos."


O meu filho senta-se à beira da minha cama


e pede-me que recite um poema


Uma lágrima cai dos meus olhos para a almofada.


O meu filho apanha-a, surpreendido, dizendo:


"Mas esta é uma lágrima, pai, não é um poema!"


E eu digo-lhe:


"Quando cresceres, meu filho,


e aprenderes o 'diwan' da poesia árabe


descobrirás que palavra e lágrima são gémeas


e que o poema árabe


não é mais do que uma lágrima chorada por dedos que escrevem."


O meu filho pega nos seus pincéis,


a caixa de pinturas à minha frente


e pede-me que lhe desenhe uma pátria.


O pincel treme nas minhas mãos


e eu afundo-me, chorando.


 


 


Nizzar Qabbani


 



publicado por MariaLua às 14:23
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Terça-feira, 17 de Abril de 2007
Voar

nubes1.jpg


-  Podes ensinar-me a voar???


- Mas tu já consegues voar!


- Eu? Como???


- Tu já tens as ASAS dentro da tua cabeça!


 


Beijos e bom dia!


Maria Lua


 


 



publicado por MariaLua às 12:13
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Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2006
Conto de Natal

RF250049.jpg


Olá amigos! Aqui ficam os meus mais singelos votos de Natal em forma de conto! Tudo de bom para vós e: Feliz Ano Novo.


A vossa: Maria Lua


Conto de Natal de Sylvie Garroche


"A Marcha do Tempo"


 Era uma vez um velhinho que caminhava com um passo lento num caminho pedregoso. Tinha o dorso arqueado e as suas roupas pendiam um pouco miseravelmente ao longo do seu corpo. Seguia-o um cão arrastando a pata e com a língua de fora. Não se sabia qual dos dois estava pior. E eis que o cão caiu morto de cansaço. O homem limitou-se a olhá-lo com um ar infinitamente triste e continuou o seu caminho. Sozinho novamente, o velho parecia transportar no seu olhar toda a miséria do mundo.


 Um pouco mais à frente, uma criança correu ao seu encontro e com a confiança e espontaneidade dos pequeninos disse:


 - Posso ir contigo?


 - Se quiseres- respondeu o homem.


 O pequeno saltitava ao seu lado. Depois, perguntou-lhe:


 - Porque é que o sol se deita todas as noites?


 - É necessário que o sol se deite todas as noites para que se possa levantar-se -respondeu o velhinho com o ar mais sério do mundo.


 - Isso é verdade, eu nunca tinha pensado nisso - retorquiu o menino.


 O velhinho sorriu e de repente a criança foi-se embora, tão naturalmente como tinha vindo.


 - Tenho que voltar para casa. Adeus velhinho.


 - Adeus pequenote.


Caminhava desde que o mundo é mundo


Mais longe ainda, um homem aproximou-se do velhinho. Tinha uns


quarenta anos mais ou menos, mas não tinha bom aspecto. Este homem tinha preparado a sua trouxa e preparava-se para partir para longe. Vendo o velhinho na sua estrada, disse para consigo:


 - Muito bem, eis que encontrei um companheiro!


 E pediu-lhe para acompanhá-lo. O velhinho aceitou. Ele nunca recusava uma companhia, qualquer que ela fosse. Durante longas horas, ele escutou atentamente o homem que contava as suas infelicidades e, pouco a pouco, este parecia sentir-se aliviado.


Chegada a noite, passaram junto de uma cabana. O homem com a trouxa começava a sentir-se fatigado e propôs:


 - Está-se a fazer noite. Pernoitemos aqui.


 Mas o velhinho respondeu que devia continuar o seu caminho. O velhinho, sem abrandar a sua caminhada, acenou-lhe amigavelmente. Depois, afastou-se na escuridão e o barulho dos seus passos perdeu-se na espessura da noite.


E os dias continuaram o seu curso; o velhinho caminhava sempre. Apesar do seu ar vagabundo, inspirava respeito àqueles que encontrava. Frequentemente, quando passava perto de um casa por volta do meio-dia, as mulheres interpelavam-no:


 - Ei, velhinho, tens um ar fatigado. Vem partilhar o pão connosco e repousar um pouco!


 Ele respondia:


 - Obrigado, mulher generosa, mas não é possível. Eu sou o tempo e o tempo nunca pára.


 Então uma criança correu atrás dele para lhe dar ao menos um pedaço de pão e deixá-lo prosseguir a sua viagem sem fim. No entanto, o velhinho teria gostado de parar ao menos uma vez, poder repousar as suas pernas cansadas, nem que fosse por alguns minutos e contemplar, imóvel, um rosto virado para ele. Mas o tempo tem outro destino: caminhava desde que o mundo é mundo. Caminhava de dia, caminhava de noite, sob o sol e a chuva. Já tinha percorrido todos os caminhos da terra e recomeçava, eternamente.


Uma noite em que caminhava sem parar, pareceu-lhe que o céu estava mais claro do que de costume e que o ar tinha um sabor diferente. Endireitou as costas para respirar a plenos pulmões e sentiu-se alegre sem saber porquê. Três pássaros esvoaçaram à sua volta chilreando ao mesmo tempo, como para lhe anunciar alguma coisa. Ao longo do caminho, viu que as flores se tinham esquecido de fechar a corola com a noite. Elas abriam as pétalas e ofereciam o coração à carícia da lua. Como era bom caminhar naquela noite!


Depois, levantando a cabeça, o velhinho notou no céu uma estrela que não conhecia. Desde que caminhava, tinha já contado e recontado todas as estrelas: aquela, tinha a certeza de nunca a ter visto. E como era bonita, aquela nova estrela, que brilhava com mil luzes sem encandear os olhos! O velhinho fixou nela o seu olhar. A estrela avançava suavemente e seguiu-a sem quase se dar conta disso.


Teve a impressão de também sentir a respiração da noite, uma brisa suave que invadia o silêncio. Era mesmo uma música, que tinha começado como um sussurro e que se aumentava agora, envolvendo a terra com um manto de cânticos e notas.


Num cruzamento de caminhos, três homens que caminhavam com um passo decidido juntaram-se a ele. Um pouco mais à frente havia um outro grupo. O velhinho distinguiu entre eles vozes de mulheres e de crianças.


E ouviu descer um rebanho de uma colina, fazendo tilintar as campainhas e ressoar os chamamentos dos pastores. No entanto, àquela hora deveria dormir-se. Que faziam eles, naquela noite, caminhando todos na mesma direcção?


- Onde ides? - perguntou o velhinho.


- Nasceu o Salvador. Vamos adorá-lo - responderam-lhe de todos os lados.


Era então isso! Chegavam agora pessoas de todos os lados. O velho juntou-se à multidão dos primeiros peregrinos que tinham chegado das colinas e a música do céu ritmou o barulho dos seus passos.


De seguida, na parte debaixo de uma pequena colina, descobriram uma pobre gruta. A estrela tinha parado por cima dela e inundava-a com uma luz suave. Um a um os pastores correram para a porta. O tempo compreendeu que era para chegar ali que caminhava há séculos. Como os pastores que o rodeavam, também ele, pela primeira vez na sua longa, longa vida, parou.


Não se passou nada de extraordinário. O Menino estava lá, entre José e Maria, e os seus grandes olhos abertos acolhiam cada um dos que entravam com uma infinita doçura. Todos se ajoelharam. Cada um apresentou-se, na sua vez. Muitos tinham trazido presentes: pequenos objectos cheios de amor que tinham escolhido com toda a ternura do seu coração.


Quando chegou a vez do velhinho se apresentar, mostrou as suas mãos vazias.


- Não tenho nada para oferecer, disse. Eu sou o Tempo, mas este Tempo eu dou-to.


O Tempo prostrou-se por terra. Maria veio pousar a mão no seu ombro.


- Também tu, caro velhinho, vais receber um presente - disse-lhe ela. Doravante, terás o poder de parar a tua marcha sempre que isso for necessário.


- Como é que eu saberei que esse momento de parar é chegado? Perguntou-lhe o velhinho.


- O teu coração to dirá.


E foi tudo. Depois dele, um pastor ofereceu-lhe um cordeiro recém-nascido e uma menina cantou a mais bela canção que conhecia. Pela pequena porta estavam sempre a entrar novos visitantes. Não se pode dizer quanto tempo tudo isto durou. Parecia que o tempo já não existia. E é verdade que tinha parado e que olhava maravilhado a festa que decorria à sua volta.


Foi o último a partir. Mas quando se levantou, já não era um velhinho como até ali: retomara o aspecto de um jovem, na força da idade. Ao deixar a gruta e ao retomar o seu caminho, fechou os olhos por alguns instantes para contemplar dentro de si este momento tão belo que acabava de viver. Depois, abriu-os e a terra parecia-lhe diferente da que ele conhecia. Ou melhor, seria ele que tinha mudado?


Mais tarde, já em pleno dia, caminhando com um passo suave sob o sol, encontrou uma velhinha carregando lenha. O molho tinha um aspecto pesado para ela que caminhava com dificuldade. A carga era da sua altura e, de repente, toda a lenha caiu e se espalhou pelo chão. Imediatamente uma vozinha infiltrou-se no coração do Tempo:


“Pára” - sussurrava-lhe a voz, e o Tempo parou.


- O molho é grande e pesado para uma mulher tão frágil como a senhora - disse o Tempo. Deixe-me ajudá-la!


À vista do olhar de agradecimento da mulher, ele apanhou os paus de lenha e carregou-os aos seus ombros.


- Onde vamos agora? - Perguntou o tempo num tom alegre. E acompanhou-a até à sua casa.


Para lhe agradecer, ela quis retê-lo e oferecer-lhe alguma coisa. Mas ele recusou a oferta.


- Desta vez eu devo partir - disse o Tempo, e fez-lhe um grande sorriso que lhe aqueceu o coração para todo o dia.


Depois, ele continuou a sua marcha muito feliz. Sentia-se mais leve que o ar e mais luminoso que a luz.


E é desde esse dia que, como certamente já adivinharam,


o Tempo pára quando se ama.


 



publicado por MariaLua às 10:35
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Quarta-feira, 20 de Setembro de 2006
O Meu Amor Existe

images1.jpg



O meu amor tem lábios de silêncio
E mãos de bailarina
E voa como o vento
E abraça-me onde a solidão termina


O meu amor tem trinta mil cavalos
A galopar no peito
E um sorriso só dela
Que nasce quando a seu lado eu me deito


O meu amor ensinou-me a chegar
Sedento de ternura
Sarou as minhas feridas
E pôs-me a salvo para além da loucura.


O meu amor ensinou-me a partir
Nalguma noite triste
Mas antes, ensinou-me
A não esquecer que o meu amor existe.


(Jorge Palma)


 


Olá amigos! Estou de partida para Beja para mais um ano de formação fantástica na area da literatura e dos contos. Falo-vos das: "Palavras Andarilhas" estou em "Pulgas" para partir...


Beijinhos e até uma próxima oportunidade!


Maria Lua



publicado por MariaLua às 12:35
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